Seu nome era Denison, vinte e dois anos, nascido na vila Conceição, infância pobre, família conturbada, sem pai, filho de mãe faxineira do hospital Moinhos de Ventos – Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. O rapaz começou aos doze anos já com os pequenos amigos a dar incertas nas lojas dos shoppings e até pelas grandes lojas do centro da cidade que estavam sempre abarrotadas pelas festividades vigentes.
Aos dezenove ele era o assaltante de bancos mais procurado de todo o país. Agora era o conhecido Dedé. O menino que se criou na rua e aprendeu rápido as peripécias do jogo, um leva e trás aqui, um toca fitas ali. Foi só questão de tempo para a bucha de coca parar na sua mão e o dinheiro na outra...
Seu nome era Fábio, vinte e três anos, nascido no bairro Moinhos de Ventos, vida tranqüila, infância farta, família estruturada, pai médico e mãe advogada da empresa multinacional Getex, sediada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. O menino foi criado nos clubes de regatas, praticava diversos esportes e, além disso, pertencia junto com seus amigos ao grupo dos escoteiros da Montanha de Pedra.
Aos dezenove ele era líder do grupo de pesquisas médicas da Universidade Federal do Rio Grande do sul. Já era conhecido como Dr. Fabio. O garoto convivia com o pai nas rodas de médicos, em enfermarias e mesas de cirurgia, não demorou muito para se acostumar ao ritmo acelerado dos hospitais. Seria mais dois anos até poder exercer definitivamente a carreira plena de médico cardiologista...
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Mas naquela noite de vinte e sete de março de dois mil e nove, o Dedé e o Dr. Fábio iriam se encontrar. Fábio foi levar a namorada em casa após jantar na casa dos sogros, enquanto isso Dedé pesava o estoque e separava pequenas sacolas em outro barraco na zona leste da cidade.
Mas foi quando a polícia apareceu.
Polícia, drogas, dinheiro e armas nem sempre resultam em conversas amigáveis. Neste ponto que Dedé abandonou o carro nas esquinas que cortavam a Av. Vinte e quatro de Outubro e a Independência, carregado com duas pistolas nove milímetros e dois pentes extras de munição.
Já o Doutor descia a Av. Goethe e encostava o carro quase no limite da faixa de segurança no segundo semáforo quem segue pelo sentido bairro-centro. Ele trazia uma pasta com um laptop, e alguns exames rotineiros cardiovasculares.
Fez-se um silêncio fúnebre ao abrirem as portas da emergência, afinal o Hospital Moinhos normalmente não atendia um próprio trabalhador tão jovem, e finalmente estavam lado a lado Dedé e Dr. Fábio. Ambos deitados em macas e lençóis banhados de sangue, o menino rico com dois tiros no peito e o garoto pobre com três tiros nas costas.
Não havia quem explicasse os dois tiros na tentativa de diálogo que ocorreu entre os dois meninos no trânsito, tão pouco os três tiros certeiros da polícia pelas costas quando Dedé tentou se entregar com as mãos na cabeça.
Nem mesmo existia interesse neste esclarecimento pseudo-confortante, agora todos estavam pálidos e pasmos com o choque de realidades, numa tentativa frustrante de encontrar motivo ou razão para aquilo tudo. Mas o que nem todos perceberam é que no final das contas os dois guris de universos tão distantes acabaram absolutamente próximos e iguais no desenrolar da vida.
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sexta-feira, 27 de março de 2009
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEngraçado que, ao ler um texto desses, sinto uma sensação de indignação, senso de justiça, reflexão e espírito solidário.
ResponderExcluirMas, no meu Rio de Janeiro, canso-me de testemunhar semelhantes histórias. Até de ver relatos contrários: o menino pobre morto, o menino rico fumando e vendendo seu baseado.
Realidades tão antagônicas andando lado a lado, visivelmente separadas entre morro e asfalto, mas intrísecas umas as outras.
No final, somos todos vítimas que fazemos vítimas. No final, somos tão mortais quanto qualquer outro: carne. Todos iguais perante a morte.
Ei!!
ResponderExcluirPassando pra retribuir a visita e
pra conhecer seu espaço.
Volto com calma...
Bjins entre sonhos e delírios